quinta-feira, 26 de junho de 2008

Causos médicos informáticos – Diferenças (3º episódio)

Após um bom tempo sem nenhum aqui causo (não me pergunte o motivo), eu fiz mais um e o resultado vocês podem conferir aqui.
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Por Matheus Gomes

Já era tarde, eu estava cansado, entediado na verdade. Já tinha um bom tempo que não aparecia um bom caso (e nenhum novato para me divertir). Mas foi aí que encontrei uma mulher chorando.

Não sou muito amigável (tá bom, não sou nada amigável), mas como não tinha ninguém por perto eu resolvi treinar este meu lado “sentimental”. Comecei perguntando o que ela tinha, e bem, só ouvi choro. Perguntei de novo, e mais uma vez ela não respondeu. Perguntei mais uma vez, e aquela mulher não respondeu (sim, estou começando a me irritar).

Depois de alguns minutos ela balbuciou algo, acho que ela disse: “São as diferenças.”. É, entendo o problema dela, quando mudei de namorada também fiquei assim (mas sem a parte do choro e da chatice).

Aí ela começou a falar como uma louca, não parava. Eu me afastei (vai que isso transmite). Tentei acalmá-la, e estranhamente deu certo. Aí então ela disse:

- Há 6 meses tive um filho, mas acho que ele talvez seja uma praga na minha vida, porque durante esse tempo tentei me acostumar com ele, mas parece que ele não gosta de mim, sempre tentar fazer coisas diferentes das outras crianças.

Bem, até aqui tudo bem. Minha mãe dizia o mesmo. Pelo menos ela encarou isso, e hoje pode me pedir ajuda (e dinheiro).

- Sempre que tento dar algo para ele, ele ignora, parece dizer que não pode ser assim, não deve ser assim. Sempre quer obter as coisas de forma diferente. Pode parecer estranho pela idade, mas ele é precoce, quer sempre fazer algo sozinho.

Chegou minha hora:

- Senhora, será que o problema é com ele? Eu acho que você tem mais problemas que ele...

Depois disto ela quase voou em mim...

- Quê? Que tipo de médico você é?

- Bem... Eu tenho um crachá e um jaleco, não tenho?

Por que eu falei isso? A mulher voltou a ficar muda.

- Acho que você deve pensar que ele tem que ser como outros. Sempre imersos naquela falsa felicidade, que depois se revela ser uma instabilidade emocional. Depressão sabe?

- Acho que, que...

- Você não tem que achar nada. Quem “acha” aqui sou eu. Eu posso errar, você não (não, não é ao contrário).

- Mas por que ele é assim? Ele não pode ser fácil de lidar como outros?

- E os outros são fáceis de lidar? Sempre deixam sujeira por onde passam. Você tem que limpar sempre, se não a coisa fica feia. Você quer ter de limpar tudo?

- Não...

- Então pronto. Aceite seu filho. Deixe-o ser diferente. Não queira que ele agrade os outros, ele tem de se agradar, caso contrário será infeliz.

- Acho que você está certo...

- Mais uma vez: você não pode achar nada. Tem de ter certeza. Apóie seu filho, o faça crescer forte. Estável, preparado para o futuro. O presente já foi construído, deixe-o construir o que há de vir.

- Sabe, tudo que você me falou é verdade. Eu achava que só porque eu tinha me acostumado com os outros, ele também já tinha de ser como eles, ou seja, sempre igual, sempre seguindo os “padrões” da sociedade. Ele tem de aprender comigo, e eu tenho de aprender com ele

- Viu só? Não é tão ruim – pelo menos não devia/deve ser –, você só tem de se acostumar, dê um tempo, o aceite. Veja o que ele gosta de fazer, e como gosta de fazer. Não se importe com os outros, mas sim com você e ele.

- Quer saber? Vou fazer o que você disse. Vou seguir seus conselhos.

- Que bom. Só me faça um favor.

- Qual?

- Não volte aqui chorando.

E foi assim que numa noite fria e chata consegui ajudar mais uma paciente. Só isso. Nada mais. Tchau.

Anotações: Tenho de tomar meus antidepressivos. Sem eles eu fico sentimental demais.

PS.: O nome do garoto era Linux.

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